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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

It had to be you


It had to be you
Pedro costumava ser o quieto da dupla, porém de tempos em tempos, Ana entrava em um processo de reclusão que fazia com que ele começasse a usar todas as armas de seu arsenal pra que ela mostrasse uma resposta, qualquer resposta. O que costumava ser um olhar irritado, uma ação mesquinha, ou um comentário ferino. Durante alguns dias nada parecia mudar seu mau humor, até que de repente acordava um dia e os pássaros estariam cantando mais forte ou o sol estaria mais brilhante e ela voltava a ser a criatura saltitante e irritante de sempre. Confundia Pedro terrivelmente, já que ele só tinha grandes mudanças de temperamento quando algo muito bom ou muito ruim acontecia. As vezes ela ficava sem falar com ele por dias e quando ele perguntava porque, ela respondia que o fato dele não saber só piorava a situação. Assim que a maré virava tudo havia sido esquecido.
Ela gostava de pensar que ele era uma alma nobre, um cavalheiro renascentista preso na época errada, mas ele sabia que não era verdade. Seu jeito calmo e contemplativo se deviam a sua imensa timidez e sua gentileza era graças ao medo de se repreendido. Não gostava de confrontos porque apavorava-o a perspectiva de acabar como um bobo. Não é que não tivesse paixão, mas preferia só mostrá-La em ambientes controlados. Por isso desde pequeno tinha se envolvido com futebol. Depois que percebeu como os jogadores, treinadores e torcedores se portavam, como se arrancar a canela ou xingar até a décima geração de um oponente fosse aceitável e até encorajado, ele chegou a conclusão que tinha encontrado seu meio, sua válvula de escape. E ainda por cima, ele era bom. Podia reclamar o quanto quisesse, pois sempre comparecia quando necessário. Ainda por cima aumentava seu círculo social, porque ali no campo não havia restrições, ele brincava com os companheiros, mexia com os adversários, flertava com as meninas que assistiam (Ana deixou ir nos jogos depois de certa idade, ele não tinha muita certeza de porque), e mesmo que assim que pisasse fora do gramado ele voltasse ao jeito de sempre, isso garantia que fosse convidado pra todas as festas e sempre tivesse colegas em trabalhos em grupo.
Já Ana tinha outras coisas em mente quando se envolvia em grupos, amizade mau contava (embora ela fosse amiga de todos). Era ambiciosa e se certificava de sempre se cercar das pessoas mais qualificadas para o que tivesse em mente. Se pretendia ser a líder arrebanhava um grupo de pessoas competentes porém subordinadas. Já quando preferia descansar se intrometia em juntamentos onde podia eleger alguém ao comando que fosse enérgico o bastante, sem encher muito o saco. Tudo que pudesse fazer para alcançar o melhor resultado possível.
Era obcecada por detalhes, embora mantivesse uma aparência descuidada. Obviamente isso também era planejado, não pretendia afastar as pessoas, que se sentiam intimidadas com alguém muito arrumado. Era só olhar pra Pedro, com suas unhas sempre limpas e o cabelo bem cortado e penteado. Era mais admirado do que realmente alguém muito amado. Era uma das coisas que ela mais gostava (e detestava) nele.
Algumas vezes ela o assustava. Tudo podia estar bem e feliz e se alguma coisa, qualquer coisinha que fosse, não correspondesse a suas expectativas ela se desesperava, chorava, arrancava cabelos e soluçava e ele tinha que por os braços ao redor dela bem forte e ficar sussurrando palavras encorajadoras em seu ouvido pra que ela se acalmasse. Normalmente nessas ocasiões ela ficava horas chorando baixinho, o rosto enfiado no pescoço dele, ensopando sua camisa. Ele se perguntava o que a faria tão infeliz. As vezes ele queria desistir e deixá-la pra trás. Dizer que ele não merecia isso, que ele não tinha sido nada além de um bom amigo e que ele não merecia sofrer também. Mas ele tinha medo, medo de que se ele a perdesse não haveria mais ninguém pra ele. Quem mais o entenderia e passaria horas em silencio, apenas observando-o com seus carrinhos e aviões, sem chamá-lo de criança ou algo pior ? Quem o levaria pra ver aqueles filmes meio artísticos e de gente grande, que meninos não deveriam ter nenhum interesse por? Com quem faria sonhos quase impossíveis de ir ser um artista em Budapeste enquanto ela o sustentaria trabalhando pras Nações Unidas?
Ela tinha algumas tiques nervosos. Seu olho se contraía quando nervosa e tinha um milhão de interesses ao mesmo tempo. Enquanto Pedro preferia se concentrar em poucas coisas e ser muito bom nelas, a atenção dela se dispersava facilmente. Uma bola de energia, sempre surgia com uma idéia nova. Eles deveriam aprender a cozinhar. A cantar. Pescar. Jogar vôlei. Ter aulas de etiqueta. Aprender a dançar bolero. Formar uma banda. Fumar. Surfar. Sempre querendo ser a primeira a fazer tudo, aprendeu a dirigir aos doze anos. Ensinou a dirigir aos treze. O piano tinha durado por insistência da mãe, e porque ela achava muito classe, quase como se fosse uma lady. Não havia nada que pudesse impedi-La de conquistar o mundo. Nada.
Naquela vez em que ela insistiu que eles deveriam ir nadar depois de ter tido uma briga feroz com os pais (era o que ela tinha dito), ele ficou com medo de que, no fundo no fundo, ela tivesse se afogado de propósito. Ele nunca chorou tanto e tão forte quanto naquela noite, abraçando o travesseiro e lembrando do rosto branco dela, desfalecido, enquanto o salva vidas fazia respiração boca a boca e massageava seu peito. Pouco tempo depois eles voltaram a andar de mãos dadas. Ele não queria que ela escapasse nunca mais.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Ne me quitte pas

Pedro e Ana se conheceram no jardim de infância. Não havia certeza ou lembrança de quem tinha iniciado relações primeiro, ou ainda porque um tinha interessado ao outro em primeiro lugar. Eram amigos desde sempre então, uma constante na vida que mudava a cada dia e ainda assim continuava a mesma, bem na época em que o tempo se estende infinitamente e uma hora pode durar três dias.
Portanto tinham (mais do que) uma vida inteira juntos.
Pedro era daqueles meninos que se mantêm na maior parte do tempo pra si mesmo, gostava de desenhar e de quebra cabeças, era gentil e educado e só se envolvia em maiores confusões quando jogava futebol, atividade que valorizava muito. Só assim era visto perdendo a cabeça, suas sobrancelhas bem juntas, o rosto avermelhado e a voz rouca de quem não está acostumado a falar muito alto. Assim que ele ficou velho o suficiente, tal atitude costumava ser considerada um tanto atraente entre as garotas que o conheciam.
Não era especialmente brilhante, nem especialmente idiota, portanto era deixado em paz na maior parte do tempo. Tinha o riso fácil, mas ele só se alargava o suficiente para formar covinhas quando sua amiga contava uma piada especialmente ruim.
Ana na verdade tinha um excelente senso de humor, mas a muito tinha aprendido que quanto pior fosse a piada mais Pedro se divertia. Vivia com o cabelo bagunçado e o rosto sujo de lama, andava sempre cercada por crianças, de sua idade, mais novas e até mais velhas, porque era um desses ímãs em forma de gente que todo mundo já se deparou alguma vez durante a vida.
Era vista sempre com uma goma de mascar na boca e era muito propensa a usar macacões e calças rasgadas nos joelhos, pelo uso. Ainda assim, era dada a introspecções e sua atividade favorita era ler um livro apoiada nas costas de Pedro. Ela se divertia quando estava cercada por seus súditos e escalava árvores, nadava em rios ou saía em aventuras para salvar o mundo. Mas trocaria tudo isso pelas horas em silêncio que passava na loja do pai de Pedro, atrás do balcão, observando a clientela que mal podia diferenciar uma chave de fenda de uma chave Philiphs.
Os dois se ocupavam desmontando e montando de novo rádios, televisões e eventualmente até um ou dois computadores. Pedro se interessava por modelismo e embora não fosse algo em que ela fosse exatamente capaz (porque mexer com miudezas nunca fora seu forte), se contentava em observá-lo trabalhar, enquanto ouvia música ou jogava paciência. Ás vezes tomavam o ônibus para o centro da cidade à procura de uma peça ou modelo novo e aproveitavam para ir no cinema e tomar sorvete. A primeira vez em que eles foram ver Billy Elliot Ana chorou tanto que ensopou a camisa dele. Se tornou o filme favorito de ambos. Eram dois melancólicos.
Ela começou a tocar piano aos 9 e o único que podia ir ver seus recitais era ele. Era uma das poucas oportunidades em que ela usava vestido e arrumava o cabelo. Era competente, mas nenhuma artista. Ainda assim ele costumava levar algumas flores pra ela. Uma vez tinha assistido um filme na televisão sobre uma concertista e visto a chuva de rosas que caiu sobre o palco no fim do espetáculo. Ele sempre aprendia rápido.
Em dias de tempestade costumavam se refugiar no quarto dela, ombro a ombro, ouvindo música dividindo um fone de ouvido, lendo revistas, as cabeças muito juntas. Comiam sanduíches de presunto com manteiga e tomavam chocolate quente com marshmallow, receita inventada por eles.
No dia em que Ana viu Pedro encostado na parede, sendo beijado por uma amiga dos dois ela sentiu como que afogando. A partir de então voltaram a andar de mãos dadas, hábito que haviam largado quando fizeram cinco anos.
Eles fumaram seu primeiro cigarro juntos. Ele tossiu o tempo todo e disse que nunca mais faria aquilo, enquanto ela manteve a pose até que seu estômago revirou e ela vomitou, sentido o tabaco no boca e no cheiro do cabelo.
Uma vez foram para praia (eles não eram velhos o suficiente pra ter carteira, mas já sabiam dirigir desde que conseguiam alcançar os pedais. Ela aprendeu primeiro), decididos a aprender a surfar. Eles nem chegaram perto de uma prancha. Foi a primeira vez que ficaram bêbados e infelizmente nenhum dos dois se lembraria da primeira vez que se beijaram.

sábado, 29 de novembro de 2008

I dare you (because I can)

Se equilibrava no meio-fio como se fosse uma bailarina, na ponta dos pés. Encostou a sola do tênis na água, testando a tensão superficial. Sentia um empurrão para cima, a gravidade novamente desafiada. Era tão engraçado, estar ali, completamente vestido, calça jeans, camiseta, casaco de moletom com capuz, e quase caindo dentro da água. Abriu os braços e se sentiu como Cristo, mas melhor, porque não devia ser agradável ter pregos na palma da mão. Ou no pulso. Se bem que, sendo Jesus quem era, não se surpreenderia que tivesse sido nas mãos mesmo. Ele estava apenas esperando, afinal.
Gravidade, tensão superficial, equilíbrio. Coisas que não compreendia e não acreditava na verdade. Preferia ter uma existência mágica, era defensor do destino, de vampiros, Shakespeare, Superman e da música. Era defensor do amor.
Enfiava as mãos no bolso do casaco e descia, pela parte molhada, fazendo um barulho de chapinhar enquanto caminhava.
Andar pela água não era tão difícil assim.

domingo, 28 de setembro de 2008

Cheiro de borracha queimada.

O calor da cidade parecia que fazia derreter. Como aquelas balas de caramelo, quando ficam muito tempo no sol. Pronto, o calor fazia as pessoas virarem caramelo.
Encostou o braço na porta de metal pra ver se esfriava. Seu suor melado fez um som úmido com o contato. Tinha muita vontade de tomar um Gatorade agora.
Quando viu aquele moço de bicicleta sentiu pena e inveja. Toda a atividade física devia ser suspensa, na sua opinião, mas pelo menos o movimento trazia um ilusório vento.
Tentou fazer um leque improvisado com as mãos, mas isso só o cansou. Queria quase desistir de existir, e o fato é que parecia incrivelmente dificil pensar agora, lento e doloroso.
Se esticou ao máximo no chão gelado e não conseguia se decidir se devia virar a cabeça pra direita ou esquerda. Qual bochecha sentiria mais calor. Por alguma razão isso parecia de extrema importancia no momento.
Seus olhos começaram a ficar pesados e alguma coisa no seu cérebro começou formigou e ele pensou que seria uma má idéia dormir agora. Não conseguia se lembrar porque.
Ah sim! Aquilo!
Tarde demais, amanhã a gente conversa.

domingo, 8 de junho de 2008

Degraus do Metropolitan

E ela se encontra mais uma vez numa dessas festinhas no Greenwich Village, dez anos depois do Greenwich Village deixar de ser um point legal.
Mas não tem importância , porque ela está usando seus óculos geek chick que fazem todo mundo se apaixonar por ela, e bebendo uma cerveja importada da Alemanha de graça.
Aquele menino bonitinho britânico continua olhando pra ela e a verdade é que ele é muito bonitinho e ela já bebeu um pouco demais , e ele tem dezessete. Ela se pergunta se já não está velha demais pra meninos de dezessete anos, mas ele se aproxima e seu sorriso faz seu rosto ficar cheio de covinhas e ela já não liga.
Cata uma garrafa de um whiskey meio caro e os dois sobem pro telhado.
Eles começam a conversar e ela percebe que ele não é dos mais brilhantes, apesar do sotaque e isso a desanima um pouco. Pensa com seus botões desde quando ela se importa se alguém é esperto se for atraente o suficiente?
Pensa que há cinco anos teria sido diferente, mas é mentira. Ela tinha sido uma dessas pretensiosas que sempre preferiu uma boa conversa à um rosto perfeito. Como se algum adolescente tivesse uma conversa decente.
Na verdade com o passar dos anos ficou mais flexível com a questão do Q.I. Hoje já deve ter bebido demais.
E ele conta como o pai do melhor amigo dele morreu e ele viu o corpo quando os paramédicos chegaram e disseram que nada podia ser feito. Ele começa a chorar e ela pensa que há cinco anos atrás ela teria sentido compaixão e até poria uma mão nas costas dele em solidariedade.
Agora ela só pensa que essa deve ser a primeira vez que ele bebe de verdade e é daí que as lágrimas vêm. E ele chorando é uma coisa bela, as lágrimas manchando a pele branca-transparente, como se fosse alérgico a água.
Ela tem vontade de soca-lo, só pra acabar com essa perfeição. Avisar que a vida é assim mesmo, que é um corpo que os paramédicos não podem salvar por dia, e que é melhor ele se acostumar.
Ela se pergunta quando ela ficou tão mórbida e pensa que há cinco anos atrás era diferente. Mas é mentira, porque com dezessete anos ela era mais mórbida que nunca, porque nem tinha começado a viver. Nunca tinha saído do Brasil, nunca tinha visto a primavera em Paris, ou andado na chuva Londrina, ou dormido ao relento numa pradaria espanhola. Principalmente nunca tinha ido a Nova York, nunca tinha descoberto que o Greenwich Village era não-legal-porém-legal, ou feito refêrencias de musicais da Broadway consigo mesma.
E ela morre de inveja dele, porque ele pode ser não tão brilhante, mas ele já está longe de casa, e bebendo whiskeys caros com uma mulher cinco anos mais velha e ele é lindo e intocado e tão jovem.
Ele pára de chorar e oferece um cigarro e ela pensa quando foi que fumar cigarros ficou cool de novo e se acha velha.
Ela se levanta para ir embora e nem pensa em beija-lo, mas ele toca seu pulso com gentileza e ela pára.
Ele anota um telefone e um endereço num cartão que tinha no bolso e diz que se um dia ela passar por Londres é pra procurá-lo.
Ele sorri aberto e olha com uma admiração tão pura que ela acaba chegando a conclusão que talvez não ter mais dezessete não seja tão ruim assim.