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sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Be still


A vontade que bate de vez em quando é ir pro espaço. As viagens pra Marte são caras e raras, mas cada vez mais civis estão conseguindo ir. Com aquela promoção que talvez chegue mês que vem é capaz que dê pra assegurar um lugar daqui a dois anos.
O que todos falam é que é isolado, e que todo mundo que vai depende apenas de si mesmo. Nada de resorts ou hotéis. Eles precisam de exploradores. Os pioneiros costumam se tornar proprietários das terras que exploram. Um velho oeste espacial. Um ambiente menos hostil.

Aí talvez seja possível recomeçar. Entrelaçar os dedos com os dos dele e respirar fundo. É tudo que precisamos.

É tão idiota, porque alguém buscaria tanta dor? Por que quando o coração se parte é tão difícil conserta-lo? Porque quando o coração se parte parece que ele literalmente está se partindo? Dizem que a dor fica no cérebro, sinapses nervosas, e dá pra entender isso na maior parte do tempo. Mas coração partido? Doí no coração mesmo. A gente sente o amor no coração.

A ideia é voltar ao inicio. Talvez naquele planeta novo (os humanos acham que tudo que eles acabaram de encontrar é novo. Marte é infinitamente mais velho do que o planeta de origem) seja mais fácil lembrar o porque dos dois. O porque de pertencermos um ao outro. Parar de correr.

Ficar quieto e ver.
E aprender que agarrar forte e não deixar que o outro se mexa, normalmente é a pior coisa possível. Ninguém gosta de ficar preso. E Marte é o único lugar que você pode ficar apenas consigo mesmo. As cidades são todas claustrofóbicas, e nenhum lugar deixa de ser vigiado. Impressionante achar que um dia alguém achou que Google Earth era uma boa ideia.

A esperança ainda não está perdida, mas é difícil.
O toque é difícil e arde. Marte é mais frio ou mais quente? O peito é quente e as mãos são frias. A solução é enfiar os dedos por debaixo das cobertas, debaixo da camisa e buscar o palpitar do coração alheio.
Ficar quieto até se aquecer. Até que os batimentos se estabilizem. Até que as extremidades peguem fogo.
Vai ser preciso aprender mais. Nenhum ignorante vai ser permitido no planeta vermelho. Mas os intelectuais não querem ir. São fracos demais. É preciso coração. Lá é onde se encontra o Deus da guerra. É necessário suportar.
Mas basta um sorriso dele para que eu fraqueje.
Por favor, não seja tão corajoso. É difícil de acompanhar.
Sabe que eventualmente vamos tropeçar. Desde que a gente não caia de lá de cima. No espaço não tem ar, e aí fica difícil respirar.
E a gente não tem asas. Não somos anjos. Não temos graça. Graça divina.
Não me deixa pra trás. Eu posso ir até metade do caminho. A gente se encontra no meio.
E vai ser tudo mais devagar, porque não existe prazer na pressa. Todo prazer deve durar. Do contrário é apenas uma ilusão.
Não adianta correr. Pra chegar em Marte só de ónibus espacial.
Mas deita junto de mim que passa rápido. Não rápido demais. O suficiente pra aproveitar o resto do dia. Mas fica quietinho, pra eu poder escutar seu coração com meu ouvido encostado no seu peito. Em Marte vai ser assim todo dia. Andar de mãos dadas até os canions vermelhos e adormecer ao relento. Ficar bem quietinhos juntos.
Era pra gente saber melhor. Marte tá tão longe. A gente tem que encontrar aqui mesmo esse lugar. Entre quatro paredes bem terráqueas.
Pode até dar medo. Eu tenho medo o tempo todo. Mas me dá sua mão que eu te dou meu coração.
Marte é vermelho e fica parado. Todo resto é movimento.


http://www.youtube.com/watch?v=_Nj_U6LlFQE




quinta-feira, 30 de abril de 2009

A little less sixteen candles, a little more touch me

"Porque se você for parar pra pensar, um filme adolescente é tão realista quanto um musical da Broadway."
É fofo ver você parado aí, com as mãos na cintura, empurrando o óculos da ponta do nariz, testando a verosimilhança do último "se não fosse por John Hughes não pensaria em existir".
"Quer dizer, porque é sempre a garota nerd que fica com o gostosão da escola? E o que acontece com o garoto nerd? Eles não merecem amar também?"
"Em Namorada de Aluguel o cara nerd fica com a popzinha. Em Vingança dos Nerds também."
Você dá de ombros e coloca outro dvd na prateleira.
"Mesmo assim, excessões."
Com o cabelo caindo no rosto, e a camiseta cinza um pouco grande demais vc parece bom o suficiente pra comer.
"Bom, eu acho que esse tipo de filme normalmente é direcionado pra garotas, e não garotos adolescentes. E é muito mais fácil quem for ir ver ser, ou ter sido, uma garota nerd que gosta do bonitão da escola do que o contrario. É realização de fantasias. Como dizem, comédias românticas servem como pôrno emocional pra mulheres. Comédias românticas adolescentes devem ser o equivalente a uma porno-chanchada leve."
Seu sorriso pra mim deixa de ser divertido e se torna predátorio.
"Porno-chanchada? E qual era a sua fantasia com o gostosão da escola?"
Você me puxa pra perto da parede e começa a beijar meu pescoço.
"Hum, sabe eu sempre gostei mais do angulo melhor amiga que é apaixonada pelo nerd gato que nem percebe que ela existe até o último minuto. Beeeeem mais realista."
Demora um tempo pra você responder, estando com a boca cheia e tal.
"Eu ainda acho esses filmes bobos."
"Você tem que pensar assim, enquanto a gente assiste 10 coisas, Ela é Demais, e, pra um estimulo mental maior, Garotas Malvadas, você perdia tempo e energia com Star Whores. Pelo menos a trilha sonora dos filmes bobos é sempre do caralho. Dancing with Myself é tão clássico."
"Puta que o pariu, porque você nunca usa saia?"
Até eu conseguir formar uma resposta coerente demora um tempo. É culpa sua.
"Culpe o pós-feminismo. Sempre me ensinaram que eu que tenho que usar as calças na relação."
Você ri no meu cabelo e é um dos melhores sons que eu já ouvi.
"Pelo menos com Star Whores eu aprendi alguma coisa."
Eu olho pra você com desafio.
"Só papo."
Você finge que não ouviu, tenta me distrair.
Funciona.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

It had to be you


It had to be you
Pedro costumava ser o quieto da dupla, porém de tempos em tempos, Ana entrava em um processo de reclusão que fazia com que ele começasse a usar todas as armas de seu arsenal pra que ela mostrasse uma resposta, qualquer resposta. O que costumava ser um olhar irritado, uma ação mesquinha, ou um comentário ferino. Durante alguns dias nada parecia mudar seu mau humor, até que de repente acordava um dia e os pássaros estariam cantando mais forte ou o sol estaria mais brilhante e ela voltava a ser a criatura saltitante e irritante de sempre. Confundia Pedro terrivelmente, já que ele só tinha grandes mudanças de temperamento quando algo muito bom ou muito ruim acontecia. As vezes ela ficava sem falar com ele por dias e quando ele perguntava porque, ela respondia que o fato dele não saber só piorava a situação. Assim que a maré virava tudo havia sido esquecido.
Ela gostava de pensar que ele era uma alma nobre, um cavalheiro renascentista preso na época errada, mas ele sabia que não era verdade. Seu jeito calmo e contemplativo se deviam a sua imensa timidez e sua gentileza era graças ao medo de se repreendido. Não gostava de confrontos porque apavorava-o a perspectiva de acabar como um bobo. Não é que não tivesse paixão, mas preferia só mostrá-La em ambientes controlados. Por isso desde pequeno tinha se envolvido com futebol. Depois que percebeu como os jogadores, treinadores e torcedores se portavam, como se arrancar a canela ou xingar até a décima geração de um oponente fosse aceitável e até encorajado, ele chegou a conclusão que tinha encontrado seu meio, sua válvula de escape. E ainda por cima, ele era bom. Podia reclamar o quanto quisesse, pois sempre comparecia quando necessário. Ainda por cima aumentava seu círculo social, porque ali no campo não havia restrições, ele brincava com os companheiros, mexia com os adversários, flertava com as meninas que assistiam (Ana deixou ir nos jogos depois de certa idade, ele não tinha muita certeza de porque), e mesmo que assim que pisasse fora do gramado ele voltasse ao jeito de sempre, isso garantia que fosse convidado pra todas as festas e sempre tivesse colegas em trabalhos em grupo.
Já Ana tinha outras coisas em mente quando se envolvia em grupos, amizade mau contava (embora ela fosse amiga de todos). Era ambiciosa e se certificava de sempre se cercar das pessoas mais qualificadas para o que tivesse em mente. Se pretendia ser a líder arrebanhava um grupo de pessoas competentes porém subordinadas. Já quando preferia descansar se intrometia em juntamentos onde podia eleger alguém ao comando que fosse enérgico o bastante, sem encher muito o saco. Tudo que pudesse fazer para alcançar o melhor resultado possível.
Era obcecada por detalhes, embora mantivesse uma aparência descuidada. Obviamente isso também era planejado, não pretendia afastar as pessoas, que se sentiam intimidadas com alguém muito arrumado. Era só olhar pra Pedro, com suas unhas sempre limpas e o cabelo bem cortado e penteado. Era mais admirado do que realmente alguém muito amado. Era uma das coisas que ela mais gostava (e detestava) nele.
Algumas vezes ela o assustava. Tudo podia estar bem e feliz e se alguma coisa, qualquer coisinha que fosse, não correspondesse a suas expectativas ela se desesperava, chorava, arrancava cabelos e soluçava e ele tinha que por os braços ao redor dela bem forte e ficar sussurrando palavras encorajadoras em seu ouvido pra que ela se acalmasse. Normalmente nessas ocasiões ela ficava horas chorando baixinho, o rosto enfiado no pescoço dele, ensopando sua camisa. Ele se perguntava o que a faria tão infeliz. As vezes ele queria desistir e deixá-la pra trás. Dizer que ele não merecia isso, que ele não tinha sido nada além de um bom amigo e que ele não merecia sofrer também. Mas ele tinha medo, medo de que se ele a perdesse não haveria mais ninguém pra ele. Quem mais o entenderia e passaria horas em silencio, apenas observando-o com seus carrinhos e aviões, sem chamá-lo de criança ou algo pior ? Quem o levaria pra ver aqueles filmes meio artísticos e de gente grande, que meninos não deveriam ter nenhum interesse por? Com quem faria sonhos quase impossíveis de ir ser um artista em Budapeste enquanto ela o sustentaria trabalhando pras Nações Unidas?
Ela tinha algumas tiques nervosos. Seu olho se contraía quando nervosa e tinha um milhão de interesses ao mesmo tempo. Enquanto Pedro preferia se concentrar em poucas coisas e ser muito bom nelas, a atenção dela se dispersava facilmente. Uma bola de energia, sempre surgia com uma idéia nova. Eles deveriam aprender a cozinhar. A cantar. Pescar. Jogar vôlei. Ter aulas de etiqueta. Aprender a dançar bolero. Formar uma banda. Fumar. Surfar. Sempre querendo ser a primeira a fazer tudo, aprendeu a dirigir aos doze anos. Ensinou a dirigir aos treze. O piano tinha durado por insistência da mãe, e porque ela achava muito classe, quase como se fosse uma lady. Não havia nada que pudesse impedi-La de conquistar o mundo. Nada.
Naquela vez em que ela insistiu que eles deveriam ir nadar depois de ter tido uma briga feroz com os pais (era o que ela tinha dito), ele ficou com medo de que, no fundo no fundo, ela tivesse se afogado de propósito. Ele nunca chorou tanto e tão forte quanto naquela noite, abraçando o travesseiro e lembrando do rosto branco dela, desfalecido, enquanto o salva vidas fazia respiração boca a boca e massageava seu peito. Pouco tempo depois eles voltaram a andar de mãos dadas. Ele não queria que ela escapasse nunca mais.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Ne me quitte pas

Pedro e Ana se conheceram no jardim de infância. Não havia certeza ou lembrança de quem tinha iniciado relações primeiro, ou ainda porque um tinha interessado ao outro em primeiro lugar. Eram amigos desde sempre então, uma constante na vida que mudava a cada dia e ainda assim continuava a mesma, bem na época em que o tempo se estende infinitamente e uma hora pode durar três dias.
Portanto tinham (mais do que) uma vida inteira juntos.
Pedro era daqueles meninos que se mantêm na maior parte do tempo pra si mesmo, gostava de desenhar e de quebra cabeças, era gentil e educado e só se envolvia em maiores confusões quando jogava futebol, atividade que valorizava muito. Só assim era visto perdendo a cabeça, suas sobrancelhas bem juntas, o rosto avermelhado e a voz rouca de quem não está acostumado a falar muito alto. Assim que ele ficou velho o suficiente, tal atitude costumava ser considerada um tanto atraente entre as garotas que o conheciam.
Não era especialmente brilhante, nem especialmente idiota, portanto era deixado em paz na maior parte do tempo. Tinha o riso fácil, mas ele só se alargava o suficiente para formar covinhas quando sua amiga contava uma piada especialmente ruim.
Ana na verdade tinha um excelente senso de humor, mas a muito tinha aprendido que quanto pior fosse a piada mais Pedro se divertia. Vivia com o cabelo bagunçado e o rosto sujo de lama, andava sempre cercada por crianças, de sua idade, mais novas e até mais velhas, porque era um desses ímãs em forma de gente que todo mundo já se deparou alguma vez durante a vida.
Era vista sempre com uma goma de mascar na boca e era muito propensa a usar macacões e calças rasgadas nos joelhos, pelo uso. Ainda assim, era dada a introspecções e sua atividade favorita era ler um livro apoiada nas costas de Pedro. Ela se divertia quando estava cercada por seus súditos e escalava árvores, nadava em rios ou saía em aventuras para salvar o mundo. Mas trocaria tudo isso pelas horas em silêncio que passava na loja do pai de Pedro, atrás do balcão, observando a clientela que mal podia diferenciar uma chave de fenda de uma chave Philiphs.
Os dois se ocupavam desmontando e montando de novo rádios, televisões e eventualmente até um ou dois computadores. Pedro se interessava por modelismo e embora não fosse algo em que ela fosse exatamente capaz (porque mexer com miudezas nunca fora seu forte), se contentava em observá-lo trabalhar, enquanto ouvia música ou jogava paciência. Ás vezes tomavam o ônibus para o centro da cidade à procura de uma peça ou modelo novo e aproveitavam para ir no cinema e tomar sorvete. A primeira vez em que eles foram ver Billy Elliot Ana chorou tanto que ensopou a camisa dele. Se tornou o filme favorito de ambos. Eram dois melancólicos.
Ela começou a tocar piano aos 9 e o único que podia ir ver seus recitais era ele. Era uma das poucas oportunidades em que ela usava vestido e arrumava o cabelo. Era competente, mas nenhuma artista. Ainda assim ele costumava levar algumas flores pra ela. Uma vez tinha assistido um filme na televisão sobre uma concertista e visto a chuva de rosas que caiu sobre o palco no fim do espetáculo. Ele sempre aprendia rápido.
Em dias de tempestade costumavam se refugiar no quarto dela, ombro a ombro, ouvindo música dividindo um fone de ouvido, lendo revistas, as cabeças muito juntas. Comiam sanduíches de presunto com manteiga e tomavam chocolate quente com marshmallow, receita inventada por eles.
No dia em que Ana viu Pedro encostado na parede, sendo beijado por uma amiga dos dois ela sentiu como que afogando. A partir de então voltaram a andar de mãos dadas, hábito que haviam largado quando fizeram cinco anos.
Eles fumaram seu primeiro cigarro juntos. Ele tossiu o tempo todo e disse que nunca mais faria aquilo, enquanto ela manteve a pose até que seu estômago revirou e ela vomitou, sentido o tabaco no boca e no cheiro do cabelo.
Uma vez foram para praia (eles não eram velhos o suficiente pra ter carteira, mas já sabiam dirigir desde que conseguiam alcançar os pedais. Ela aprendeu primeiro), decididos a aprender a surfar. Eles nem chegaram perto de uma prancha. Foi a primeira vez que ficaram bêbados e infelizmente nenhum dos dois se lembraria da primeira vez que se beijaram.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Déssire

Basta um segundo e está tudo arruinado. Um segundo e a máscara cai, máscara essa que nem sabia existir. Por isso talvez tivesse sido tão eficiente, até aquele segundo.
É preciso usar toda a força de vontade para não atravessar a mesa e ataca-lo. E a frase, alguma coisa importante, com certeza, quase foi dita pela metade, por que por aquele segundo qualquer pensamento coerente havia evaporado e você simplesmente amaldiçoa mentalmente o fato de haver uma mesa entre vocês. Você imagina como conseguiu respirar de novo.

Sim, luxúria, é exatamente isso que te atingiu te deixou desnorteada, sem chão e com uma maldita mesa pela frente. Isso que te faz pensar o quanto ele é macio e quente, o quanto ele cheira bem, e meu Deus, você teve que lembrar agora dele saindo do banho, com o cabelo molhado e a toalha no pescoço, e como as mãos dele são bonitas, grandes e delicadas ao mesmo tempo, e você aposta que ele poderia tocar piano se quisesse, e você apenas quer mordê-las. E tudo isso por quê?
Ele é intocável, belo e intocável, como uma peça de museu. Não, melhor, porque ele te ama. Sim, ama como Galateia amou Pigmaleão, um amor por gratidão, por ele te-la criado. É parecido com vocês dois. Ele te ama por você cuidar dele e por acreditar nele e por sempre sorrir quando ele precisa. Você o ama por ele existir.
Amor? Sim, isso você nunca negou. Desde o momento em que ele sorriu a primeira vez, você o amou. Irônico, justamente você, que nunca acreditou em amor à primeira vista.

Mas tinha pensado que as coisas tinham se acalmado, uma coisa meio maternal, meio fraternal, meio alma-gêmea.
Claro que havia algo de mais. Esse empuxo que você sente em relação a ele não é normal. Você não costuma se importar com o que as outras pessoas pensam sobre você, mas tentar adivinhar o que ele está pensando é quase uma obsessão sua.
Era uma obesessão sua, porque agora não existe mais o tentar, você simplesmente sabe. E você, nesse segundo, com essa mesa, reza pra que não seja recíproco. Porque nada nunca foi recíproco entre vocês dois. Você ama ele mais, ele te suporta mais.
Mentira, a frustração é a mesma. Ele nunca sabe o que você quer e você sempre sabe o que ele quer e ele nunca quer você.
E agora ele deita na abençoada/maldita mesa. E não ajuda em nada o fato de que ele está sorrindo.
Você conhece a curva do sorriso dele, e isso te enche de medo, porque o que diabos quer dizer conhecer a curva do sorriso dele? Você não sabe e não se importa, apenas espera que ele conheça a curva do seu sorriso.
Você acha que sim, e você diz a si mesma que isso basta. Vamos ver quanto tempo essa mentira perdura.
Nunca sentiu desejo por alguém assim antes, duvida que algum dia irá sentir de novo.
Porque ele, em suas falhas é perfeito, e a perfeição é algo que só se encontra uma vez na vida. E você se torna feliz em saber que esse fato pertence só a você e ninguém mais. Ele pertence só a você e ninguém mais.
Isso te acalma, você olha pra baixo e lembra do seu papel. Tudo vai dar certo, é só não se afogar em seus olhos.

sábado, 29 de novembro de 2008

I dare you (because I can)

Se equilibrava no meio-fio como se fosse uma bailarina, na ponta dos pés. Encostou a sola do tênis na água, testando a tensão superficial. Sentia um empurrão para cima, a gravidade novamente desafiada. Era tão engraçado, estar ali, completamente vestido, calça jeans, camiseta, casaco de moletom com capuz, e quase caindo dentro da água. Abriu os braços e se sentiu como Cristo, mas melhor, porque não devia ser agradável ter pregos na palma da mão. Ou no pulso. Se bem que, sendo Jesus quem era, não se surpreenderia que tivesse sido nas mãos mesmo. Ele estava apenas esperando, afinal.
Gravidade, tensão superficial, equilíbrio. Coisas que não compreendia e não acreditava na verdade. Preferia ter uma existência mágica, era defensor do destino, de vampiros, Shakespeare, Superman e da música. Era defensor do amor.
Enfiava as mãos no bolso do casaco e descia, pela parte molhada, fazendo um barulho de chapinhar enquanto caminhava.
Andar pela água não era tão difícil assim.

domingo, 28 de setembro de 2008

Cheiro de borracha queimada.

O calor da cidade parecia que fazia derreter. Como aquelas balas de caramelo, quando ficam muito tempo no sol. Pronto, o calor fazia as pessoas virarem caramelo.
Encostou o braço na porta de metal pra ver se esfriava. Seu suor melado fez um som úmido com o contato. Tinha muita vontade de tomar um Gatorade agora.
Quando viu aquele moço de bicicleta sentiu pena e inveja. Toda a atividade física devia ser suspensa, na sua opinião, mas pelo menos o movimento trazia um ilusório vento.
Tentou fazer um leque improvisado com as mãos, mas isso só o cansou. Queria quase desistir de existir, e o fato é que parecia incrivelmente dificil pensar agora, lento e doloroso.
Se esticou ao máximo no chão gelado e não conseguia se decidir se devia virar a cabeça pra direita ou esquerda. Qual bochecha sentiria mais calor. Por alguma razão isso parecia de extrema importancia no momento.
Seus olhos começaram a ficar pesados e alguma coisa no seu cérebro começou formigou e ele pensou que seria uma má idéia dormir agora. Não conseguia se lembrar porque.
Ah sim! Aquilo!
Tarde demais, amanhã a gente conversa.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Judy, Carmem e Madge

"When you know the notes to sing
you can sing most anything "
Julie Andrews

Ás vezes perguntam porque ela faz. Por que se exaurir, com três, quatro shows por noite. Ela já não é tão nova e não consegue fazer tudo sozinha.
Drogas para dormir, drogas para ficar acordada, drogas para emagrecer,drogas pra se distrair, drogas para continuar vivendo.
Ela diria que é pra pagar as contas. Ela nasceu fazendo isso, é só isso que sabe fazer e ser arrimo de família é um hábito difícil de se perder. Porque quando você pensa que vai conseguir descansar por cinco minutos, quando você pensa que as coisas vão poder sair do seu controle e tudo vai ficar bem, é quando acontece.
Entrevistas, reportagens, livros. Irmão, mãe, sua própria filha.Ela é difícil, é ingrata, é louca. Eles nunca reclamam enquanto ela está trabalhando.
E se eles pedem perdão ela aceita, porque família é lar, e não há lugar como nosso lar. Isso é o que ela diz, pelo menos. O sangue é mais grosso.
Aqui, atrás da cortina, ouvindo o murmúrio, ou o grito, do público é que faz valer a pena. O tecido vermelho escuro é a única coisa que a separa do seu extâse.
O Paraíso é na Terra e se chama palco. E ela se pergunta como alguém sobrevive sem isso. Porque não existe substância ilícita melhor que a adrenalina da antecipação e não há maneira de ficar mais próximo de alguém do que quando você canta pra uma pessoa e somente pra ela.
E é por isso que seu ato é longo. Porque cada um ali tem uma música que é dele e ela tem que cantar pra todos. Porque é isso que ela faz melhor e ela é a melhor no que faz.
E não é preciso sapatinhos de rubi, balangãdas ou crucifixos. Ela já está em casa.

terça-feira, 1 de julho de 2008

assim

E é tipo como se eles tivessem dançando uma valsa, talvez seja isso mesmo. Mas essa nem é minha parte favorita. O legal é quando ele pega a mão dela e dois saem correndo pelo mundo, selvagens e jovens. E também quando ela ri, do outro lado da rua, e ele percebe que é pra ele.
-O nosso amor é tipo assim, épico.
-Okay, Logan.
-Quem?
Ele pisa nos pés dela e ela tem que conduzir. Será um tango? Ele grita com entusiasmo e ás vezes ela manda ele calar. Ás vezes ela grita junto. E essa é minha parte favorita.
Ela fica muito quieta e ele fica quieto também, por três segundos que seja, e pergunta o que está acontecendo e ela só olha e ele entende. E essa é a minha parte favorita.
-É tipo assim, daqueles que te fazem querer voar.
-E uma rosa por outro nome ainda terá o mesmo perfume?
-Bebeu?
E quem diria que era tão fácil aprender um paso doble. Pelo menos é isso que parece. Impressionante é quando ela não sabe, e ele tem que contar, mas é claro que ela não acredita, e é claro que no fim ele que está certo. E essa é minha parte mais preferida.
Mas sabe quando eles nem se impressionam mais um com o outro? Quando o fato dele ser fantástico, e dela ser fantástica, é natural? Essa é minha parte favorita.
E lembram quando eles se lembram que eles são fantásticos, e que nem todo mundo é assim? Essa é minha parte favorita.
Não, sinto muito, mas eles se recusam a dançar isso que eles chamam de salsa. Uma pouca vergonha, isso sim. Eles tem classe, afinal. E essa, bom, essa é minha coisa favorita.
E quando eles caem no tempo e espaço e brincam que são melhores amigos. Essa é minha parte predileta.
As vezes é tudo tão intenso e rápido que eles esquecem que se gostam e viram quase que inimigos. Os mais formidáveis dos inimigos, porque eles se conhecem tão bem. E essa é minha parte favorita.
E quando ele esquece de reparar nos sapatos dela. E quando ela amarra o nó da gravata dele. E quando os dois aparecem com um corte de cabelo novo e meio que se ressentem por isso, porque cara, eu queria muito que você ficasse focado no meu cabelo. Eu acho que essa é parte favorita do mundo inteiro.
Quando ela não para de falar. E ele perde a eloquência. Ela anda com o braço entrelaçado no dele, pra não perde-lo.
O final do giro que eles fizeram direito. Talvez tenha sido um bolero o tempo inteiro.
-Intrepído. Como Lois Lane e Superman.
Ela acha graça, porque ele não assiste muita tv.
-Por favor, é o século 21, como Clark e Chloe, pelo menos.
E essa é minha parte favorita.


domingo, 8 de junho de 2008

Degraus do Metropolitan

E ela se encontra mais uma vez numa dessas festinhas no Greenwich Village, dez anos depois do Greenwich Village deixar de ser um point legal.
Mas não tem importância , porque ela está usando seus óculos geek chick que fazem todo mundo se apaixonar por ela, e bebendo uma cerveja importada da Alemanha de graça.
Aquele menino bonitinho britânico continua olhando pra ela e a verdade é que ele é muito bonitinho e ela já bebeu um pouco demais , e ele tem dezessete. Ela se pergunta se já não está velha demais pra meninos de dezessete anos, mas ele se aproxima e seu sorriso faz seu rosto ficar cheio de covinhas e ela já não liga.
Cata uma garrafa de um whiskey meio caro e os dois sobem pro telhado.
Eles começam a conversar e ela percebe que ele não é dos mais brilhantes, apesar do sotaque e isso a desanima um pouco. Pensa com seus botões desde quando ela se importa se alguém é esperto se for atraente o suficiente?
Pensa que há cinco anos teria sido diferente, mas é mentira. Ela tinha sido uma dessas pretensiosas que sempre preferiu uma boa conversa à um rosto perfeito. Como se algum adolescente tivesse uma conversa decente.
Na verdade com o passar dos anos ficou mais flexível com a questão do Q.I. Hoje já deve ter bebido demais.
E ele conta como o pai do melhor amigo dele morreu e ele viu o corpo quando os paramédicos chegaram e disseram que nada podia ser feito. Ele começa a chorar e ela pensa que há cinco anos atrás ela teria sentido compaixão e até poria uma mão nas costas dele em solidariedade.
Agora ela só pensa que essa deve ser a primeira vez que ele bebe de verdade e é daí que as lágrimas vêm. E ele chorando é uma coisa bela, as lágrimas manchando a pele branca-transparente, como se fosse alérgico a água.
Ela tem vontade de soca-lo, só pra acabar com essa perfeição. Avisar que a vida é assim mesmo, que é um corpo que os paramédicos não podem salvar por dia, e que é melhor ele se acostumar.
Ela se pergunta quando ela ficou tão mórbida e pensa que há cinco anos atrás era diferente. Mas é mentira, porque com dezessete anos ela era mais mórbida que nunca, porque nem tinha começado a viver. Nunca tinha saído do Brasil, nunca tinha visto a primavera em Paris, ou andado na chuva Londrina, ou dormido ao relento numa pradaria espanhola. Principalmente nunca tinha ido a Nova York, nunca tinha descoberto que o Greenwich Village era não-legal-porém-legal, ou feito refêrencias de musicais da Broadway consigo mesma.
E ela morre de inveja dele, porque ele pode ser não tão brilhante, mas ele já está longe de casa, e bebendo whiskeys caros com uma mulher cinco anos mais velha e ele é lindo e intocado e tão jovem.
Ele pára de chorar e oferece um cigarro e ela pensa quando foi que fumar cigarros ficou cool de novo e se acha velha.
Ela se levanta para ir embora e nem pensa em beija-lo, mas ele toca seu pulso com gentileza e ela pára.
Ele anota um telefone e um endereço num cartão que tinha no bolso e diz que se um dia ela passar por Londres é pra procurá-lo.
Ele sorri aberto e olha com uma admiração tão pura que ela acaba chegando a conclusão que talvez não ter mais dezessete não seja tão ruim assim.

domingo, 18 de maio de 2008

A única maneira de manter um segredo

Ele te olha zombeteiro e é realmente irritante porque ninguém deveria poder ter esse olhar a não ser você, mas ele o utiliza com maestria e não importa o porque, mas te impressiona.
Você empurra os óculos da ponta do nariz, pressiona o fim da caneta e vai embora.


Alguma coisa a irritou. Provavelmente você. Isso é bom. Quer dizer que ela reconhece que você também está jogando. O que não é tão bom é que ela começa a escrever naquele maldito caderninho vermelho.
Ela sempre faz isso quando algo/alguém atrapalha sua visão, ele já notou. Que ele saiba ninguém leu o que está escrito. O que ele não daria pra ver uma página sequer...


Uma vez ele perguntou:
"E o que é isso? Um diário?"
"Eu pareço o tipo de garota que teria um diário?"
"Acho que não conheço nenhuma garota que escreve em diário, pra ser sincero. Então vai saber."
"Eu não sou esse tipo de garota."
Ele acreditou nela. Na época não se conheciam tão bem. Ele não sabia que 80% das vezes ela só estava esperando você virar as costas pra dar uma risada.
"Então quer dizer que não tem nada escrito aí sobre mim?'
"Você se acha importante o suficiente pra ter algo escrito sobre?"
Ele riu. Ela estava falando sério.


Agora ele duvida muito que esteja escrevendo qualquer coisa que não fosse sobre ele.
Ela está usando um vestido, com um salto baixo, toda prática, e ele gosta. Mas isso é segredo.


Ela acha que ele a afeta mais do que ela afeta a ele. E isso a confunde, porque sabe, se o pós-feminismo provou alguma coisa é que os meninos sempre são os mais afetados.
Ás vezes eles não são nem amigos, mas na maior parte do tempo ele é o único que entende a piada, então como ela vai desistir disso?
Ela escreve por vaidade, como tantos, mas não mostra a ninguém, por orgulho. Escrutínio público não é seu modus operanti. Ela age na surdina.
Ás vezes ela quer mostrar pra ele tudo, ela acha que assim ele vai ficar realmente impressionado, que assim ela vai voltar a ter vantagem. Mas se não der certo ela vai estar arruinada, e isso tiraria a Terra de órbita ou algo.
Ela acha que isso deveria ser um segredo, mas desconfia que ele já sabe.
Uma onda de calor sobe pelo seus dedos do pé, como naquela vez que ele beijou seu pescoço. Bons tempos.


domingo, 27 de abril de 2008

Na trincheira

Lama empapava calças escorregadias.
-Vai! Eu te dou cobertura.
Foi. E a leveza da mente naquele momento era imensurável. Sabe quando parece que seu corpo não pertence a você mesmo? Assim.
Nem ouvia mais os tiros ou sentia a chuva gelada. Escorregou no momento em que seria atingido. Sorte. A próxima bala atingiu o inimigo, seu espelho complementar.
Agarrou a placa de identificação metálica num gesto impensado. Não queria ser perder.
Continuou sua jornada, saltando sobre campos previamente floridos, gostava de margaridas. De um fôlego só, mergulhou no buraco da salvação. Olhou pra frente, cansado, e pôs-se a imaginar o resto do longo caminho, como seria possível voltar pra casa.
Se sentiu como Orfeu e teve que olhar pra trás. Encontrou olhos concentrados, uma arma em punho, ombros retesados.
Gritou:
-Vem! Eu te dou cobertura.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Cinco minutos para o fim do mundo

-Olha pra mim.
É difícil, ela sabe que vai ouvir o que não quer, mas é uma ordem tão pura, honesta, preocupada e sem malícia que é impossível não obedecer.
-Você acha isso normal? Ela tá lá naquele hospital, sabe-se lá em que estado e você muda pra casa dele. Você não vai substituir ela, sabia?
-Não é nada disso. Ele, ele precisa de mim. Ele está sozinho agora, ele é meu melhor amigo, eu tenho medo do que possa acontecer se eu não estiver lá.
A pena que está incrustada em seus olhos dói mais do que qualquer reprimenda.
-Eu só não quero que ele te machuque.
-Ele nunca faria isso de propósito.
-Eu sei. É disso que eu tenho medo.
.
.
.
Ela fica no quarto de hóspedes, ao lado do dele. Dorme sem problemas até que ouve um barulho e quase tem um ataque do coração. Ele está lá, parado no meio do quarto, lágrimas descendo pelo rosto.
Ela estende a mão, chamando e ele deita do lado dela, seus dedos entrelaçados. A cabeça dele repousa sobre sua barriga.
-Eu tive um pesadelo.
-Shh, já acabou, eu estou aqui.
-Mas eu, eu não posso deixar...
-Vai ficar tudo bem. Eu prometo.
Ele aperta a mão dela mais forte e adormece.
Eles dormem sempre assim, aconchegados um no outro. Um dia os pesadelos acabam, nesse dia ele beija ela.
Ela tem medo que ele peça desculpas, mas ele não pede. Os dois dormem bem a noite inteira.
O que começa com um beijo casto, ascende, até o ponto em que a única coisa que os dois usam debaixo das cobertas é pele.
Então ele pára.
-Não, eles vão vir atrás de você.
Ela suspira frustrada.
-Você sabe que não importa, não é? A nossa relação já é mais próxima que a que vocês tinham, se eles me quisessem já teriam vindo.
Ele olha com tanta tristeza que ela quer abraça-lo. Mas ela vem fazendo isso o tempo todo e de nada adiantou. É hora de tough love.
-Sabe meus pesadelos, eles eram sobre você, sobre eles tirarem você de perto de mim. Eu não sobreviveria.
Ela sorri com dor.
-Claro que sobreviveria. Você sobrevive sem ela.
-Ela não é você. Você é mais.
Eles fazem amor o mais silenciosamente possível, como se tentassem impedir algum espírito da casa de acordar.
Ela vai ao hospital levando flores e olha dentro daqueles olhos vazios.
-Me desculpe, mas ele é meu agora. Ele sempre foi.

sexta-feira, 7 de março de 2008

A trail for the devil to erase

Nasceu sob um signo maldito, uma estrela vermelha.
Sangrou pela primeira vez aos doze anos e sentiu que ao mesmo tempo perdia algo precioso e ganhava uma vida nova.
Suas presas cresceram aos 15 e foi aí que batata frita deixou de ser sua comida favorita. Bife mal-passado, por favor. O boi mugindo, de preferência.
Não era de usar muito preto, mas também não ia sair por aí de amarelo.
Sempre achou cemitérios interessantes, pra falar a verdade, aqueles antigos com as estátuas e criptas. Mas nunca de noite, ainda lembrava como tinha ficado dias sem dormir depois de assistir Buffy.
Não adquiriu força sobre-humana ou um poder de cura, ainda sangrava se se machucava, mas o reflexo nunca sumiu do espelho.
Matou pela primeira vez aos 18. Sem querer. Ela até que gostava dele. Mas seu coração não suportou ouvir o peito vazio dela.
Sua primeira refeição humana. É, já teve melhores. Preferia um carpaccio.
Aos 20 começou a ser caçada. Passava o máximo de tempo na praia, nunca procuravam lá.
Ficou mais bronzeada que os surfistas que ela afogava.
Foi empurrada pro meio da rua por um ladrão de carteiras que fugia da polícia. O caminhão nem a viu. Sob uma estrela prateada, morreu aos vinte cinco anos.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Sushi-Bar 24 hs

Ela quase passou batido pelo sushi-bar. Então o neon-azul lembrou-a da fome que sentia.
Andava arrastando os pés, as pernas afastadas, as mãos tão enfiadas nos bolsos da jaqueta de couro que parecia estar se preparando pra ser atacada.
Sentou no balcão e viu pedaços de salmão rosado passarem a sua frente. De repente não estava mais com tanta fome.
Ela escaneou o ambiente e viu ele. Tinha cílios longos, que quase tocavam sua bochecha, os ombros estreitos e cabelo que seria encaracolado se não estivesse tão curto.
Viu ela observando e sorriu. Se levantou e sua figura tinha uma graça estudada. Ele quase não tinha indicio de barba.
-Algum problema com seu sushi?
-Você trabalha aqui?
-Só curiosidade. Meu nome é Kevin, por falar nisso.
Ele ofereceu a mão pra ser apertada, tinha dedos longos, unhas curtas e bem cuidadas e uma veia saltada nas costas da mão.
-Kevin? Você está falando sério?
-Talvez.
-Ana Luísa.
Ele olhou pra ela, espantado.
-Sério?
-Quem sabe?
Ela resolveu comer afinal. Lula, que tinha gosto de frango.
-Então Kevin, não está meio tarde pra você estar acordado?
-Mas baby, gatos são criaturas noturnas.
Ele era quase asqueroso. Se não fosse completamente charmoso.
-E quantos anos você tem mesmo?
-18.
Ela olhou com incredulidade.
-Okay, 16. Droga, se essa barba crescesse de uma vez.
-Eu acho que não ajudaria muito, Kev.
Ela tirou o casaco, revelando uma tatuagem (ou seria uma cicatriz?), no ombro esquerdo. Colocou o casaco no colo dele.
-Ah, eu já entendi.
-O que?
-Você, com essa história de ficar se despindo. Não é muito sutil, sabia?
-Talvez eu esteja com calor.
-Talvez você queira me seduzir.
-Não é um hábito meu tentar seduzir garotos adolescente na madrugada.
-Garotas, então?
Ela sorriu genuinamente.
-Você é o pior.
-E ainda assim você continua conversando comigo.
-Foi você que veio até aqui.
Ela apoiou os cotovelos na mesa, afundou o pescoço e sentou com as pernas abertas, como se fosse um cowboy.
-Mas Ana, você estava praticamente gritando meu nome com os olhos.
-Eu ainda nem sabia seu nome, Kev. Ainda acho que não sei.
Ela levantou e pareceu que ia sair. Passou perto dele e sussurrou.
-Eu quero ouvir você gritar meu nome.
Saiu do restaurante sem pagar a conta.
Ele teve que segui-la. Pra devolver o casaco. Você sabe.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Sing(c)el(r)o

-Gosh, this boy. Depois que foi feito, quebraram o molde.
Falou sem emoção.
-Ah, você acha isso? E porque não fala pra ele?
Os joelhos das duas se tocavam levemente. Deu de ombros.
-Pra que? Que bem faria?
-Sei lá. Talvez... sei lá.
Começou a brincar com as pontas da pulseira, já desbotada, do Senhor do Bonfim. Três desejos.
-Será que ele usa protetor solar?
-Quando vai pra praia?
-Não, não, assim, todo dia.
Piscou duas vezes, lentamente.
-Vai saber.
O barulho das bolas sendo chutadas, socadas e estapeadas era amplificado pelo teto alto.
-Eu acho as pintas dele bonitas.
-As o quê?
-As pintas. Do pescoço.
-É verdade.
Ele parou no meio da quadra, de costas para as duas. Pôs as mãos na cintura, como se seus rins incomodassem e girou o tronco.
Localizou as meninas, sorriu e acenou. Ela acenaram de volta. Saiu correndo.
-Posso te contar um segredo?
Pôs a mão na frente da boca, mas não diminuiu o volume da voz.
-Hum?
-Eu acho que ele sabe.


I think that he knows, I think that he knows.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O Corvo

Ele passava o dia inteiro no escritório quebrando números. Se fosse mais esperto ele conseguiria perceber o padrão que ligava todos eles, mas como não era apenas ficava inquieto com a estranha familiaridade que permeava seu trabalho.
Sua função era checar se o computador estava fazendo as contas direito. Era bom com números, números altos e simples, números que não precisavam ser embasados em muita teoria. Ele não saberia explicar, nem pra si mesmo. Ensinavam pra ele que dois mais dois são quatro e ele chegava a conclusão que quatro mais quatro são oito, só não perguntassem porque, ele simplesmente sabia.
Na escola não tinha tido amigos e era ruim em todas as outras matérias, mas desde cedo ele aprendera que se alguém fosse bom o suficiente em matemática não importava o quão péssimo ele fosse nas outras coisas. Sempre passou por conselho.
Ainda assim, não era algo que o fascinasse. Era só uma habilidade que ele tinha, assim como outras pessoas sabiam assobiar e outras não. Ninguém achava assobiar particularmente interessante, assim como ele não ligava para números.
Um dia ele tinha ouvido falar que matemática e música tinham muito a ver uma com a outra. Isso foi o suficiente pra convence-lo a não fazer matemática na faculdade. Odiava música.
Música de qualquer tipo, desde hip-hop a Bach, o deixava nervoso e claustrofóbico e se havia alguma coisa que podia tira-lo do sério era pegar carona com alguém que ligava o rádio. Evitava pegar caronas. Evitava também reuniões sociais. Reuniões sociais costumavam ter música.
O único ritmo que tolerava era a melancolia surda e repetitiva de alguma músicas eletrônicas. Desde que não houvesse alguém cantando por cima. Cantores eram os piores. Portanto tinha feito contabilidade.
E os números continuaram aparecendo, naquele padrão-fantasma não identificável. Ás vezes conceitos como dobro, triplo, raiz quadrada, metade surgiam na mente dele, mas nada que o fizesse ficar intrigado, nada que ele se sentisse compelido a identificar.
Morava no 314 . Certa vez tinha ficado mais de uma hora em frente a porta, só olhando o número, como se houvesse algo nele que explicaria tudo. Mas alguma coisa estava faltando, e nada realmente aconteceu, então ele tinha agarrado sua pasta e entrado.
Estava fadado o dia em que ia dar errado. Todas as mensagens de erro do computador se resumiam a um número; 6,29; 6,29; 6,29; 6,29.
Então algo clicou em seu cérebro e ele compreendeu. Todos os segredos guardados por um bom motivo vieram afogando sua mente, com a força de uma avalanche, e ele descobriu que sabia a mais terrível das verdades.
Naquele dia um brilho de loucura se instalou em seus olhos.

Só pra avisar pra vcs que minha crise está terminada, e deu tudo certo, mas eu me sinto meio desconfortavel em escrever sobre ela aqui, mas valeu pelos votos de confiança. Então, eu to querendo voltar pra Bsb quinta ou sexta, e se alguém quiser me pegar na rodoviaria e me dar carona pra casa eu agradeço, porque a minha mãe vai viajar e volta só domingo, e táxi é caro... Ah, por último, se alguém não entendeu a referencia do titulo, está desesperadamente precisando ler Poe.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Cause I can make hot, make you stop, make you wanna say my name, girl


I can´t wait to fall in love with you

Na verdade foi o brilho do olhar dela, prestes a chorar, que me fez parar e prestar atenção. A idéia de querer consolar alguém sem segundas intenções, era nova e excitante.
Ofereci meu lenço, ao lado da fonte do jardim, mas ela não deve ter entendido meu sorriso bobo e irrestrito, desprovido da mistique e charme tão bem lapidados durante toda a minha existência.
Quando ela tocou minha mão, devolvendo o lenço, cheguei a conclusão que valera a pena.

You can´t wait to fall in love with me

Ela relutou em montar comigo. Dizia que por mais que tivesse domado mais de meia dúzia de éguas enquanto crescia na fazenda, não era certo uma moça direita sair cavalgando por aí, com um cavalheiro que ela mal conhecia.
Ela me chamar de cavalheiro me fez rir e ficar mais determinado.
Levei meu alazão, Bola-de-Neve pra conhece-la e foi amor à primeira vista.
Foi uma tarde extremamente agradável, entre os dois. Eu fiquei basicamente sentado na varanda, contando teias de aranhas do teto até eles voltarem do, longo, passeio. Dezessete.
Mas o olhar de pura adoração que ela me lançou, depois de ter, finalmente, voltado, me agradecendo por ter podido montar tão nobre animal, me disse que eu faria tudo novamente.

This just can´t be summer love, you´ll see

Minha mãe não gostou da nossa amizade, afinal ela era uma camponesa, como muitas outras antes, e deveria ser só um passatempo, nada de longas tardes quentes e preguiçosas passadas juntos, apenas sobre biscoitos e suco e conversas sobre raças puras. Nada de passeios de barco no lago da cidade, ou cochilos embaixo de árvores, enquanto ela lia poesia e afagava meus cabelos.
Sem classe, ela dizia, sem berço, sem inteligência, quanto tempo você acha que vai aguentar sem se entediar com ela.
Pra sempre, eu respondia, e quando via o rosto dela, sorrindo pra mim, quando entrelaçava meu braço, eu sabia que dizia a verdade.

Come on baby, please, I am on my kness

Demorou cinco semanas de corte até ela aceitar ir a um dos bailes comigo.
Iríamos montados no Bola-de-Neve. Eu até tinha oferecido selar outro cavalo mas, corando, ela tinha dito que estava tudo bem, Bola-de-Neve era forte o suficiente para carregar nós dois de uma vez.
Transbordando de alegria, me ajoelhei, oferecendo minha perna para que ela subisse na sela.
Durante o caminho todo ela me provocou dizendo que não sabia que seria tão fácil me botar de joelhos.
Eu não me importei, sabendo que naquela noite eu iria traze-la de joelhos também.

This just can´t be summer love

Depois de três meses ela me disse que vai embora. Vai viajar de barco com o pai, que barco seria esse ela não me diz. Temo que a minha mãe teve alguma coisa a ver com isso.
Eu digo que a gente pode fugir, passar um tempo fora, fingir que tivemos uma pequena morte. Ela olhou pra mim e tentou não rir na minha cara.
É uma conversa racional, cheia de nunca ia dar certo,nós somos muito diferentes e nossos pais se odeiam. Eu penduro minha cabeça em desolação e tento mais uma vez.
Mas você não entende, apelo, eu nunca, nunca foi assim. Eu nunca senti... Você não pode simplesmente ir.
Ela me olhou com compaixão, pegou minha mão e tirou minha luva. Beijou o dorso da minha mão, como se fosse um cavalheiro. É a primeira vez que ela realmente beija um pedaço da minha pele.
Não, eu quero dizer, mas não digo. Nós dois nos damos as costas e vemos o ultimo sol do verão morrer.






quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Bangue-Bangue a La Texana

Os nós dos dedos contra a madeira fazem um barulho ritmado. Quase acompanham a pianola do bar.

Jesse, the Sunset Kid tomava seu chá-mate cor-de-whiskey enquanto as moscas faziam um baile vitoriano ao redor da sua cabeça. Estão todas muito afinadas.

Ele olhou rapidamente pra trás quando ouviu a porta dupla se abrindo, então quando Pepê "El Ratón Matador" põe a mão em seu ombro pode fingir que sempre soube quem era.

-Usted y yo, isso significa eu e você, chico, lá fora, agora.

Sunset olha de soslaio o adversário antes de virar um shot do chá-whiskey.

-Vamos lá.

Pepê veste um daqueles ridiculos coletes de couro branco que andam na moda. The Kid espera poder comprar um desses um dia, mas ele quer que o seu tenha uma mancha preta, como das vacas malhadas que dão leite de chocolate.

Eles andam lá fora fingindo não querer chamar atenção. Ninguém dá muita bola mesmo, exceto as moscas. Fiéis companheiras, Sunset já deu nome pra duas ou três.

Jesse puxa dois pirulitos que estavam pendurados no cinto e oferece um para Ratón.

-É de uva?

-Não, morango.

-Aceito.

Enquanto terminam o doce conseguem puxar conversa mole. Sabe, quebrar o gelo.

-Sim, foi o White que me ensinou a tocar guitarra. Ele disse que queria contratar uma mestiça pra ficar tocando atabaque. Ele quer fazer uma versão elétrica de La Bamba. Eu disse que nunca vai dar certo.

-Guitarra elétrica? Eu prefiro meu banjo âmbar.

-É por isso que você é um caipira.

-Pelo menos eu não finjo que falo espanhol.

Os dois riram. Fecharam a cara e deram dez passos longos de distância.

-Winchester 22?

-Não quero saber de nenhuma outra.

Eles quase podem ouvir o assovio dos índios e o uivo do coiote amestrado.

-Uno... dos... tres. Fuego!

BANG!

Pepê cai com o impacto da bala. O vermelho se espalha pelo seu colete branco e pelo chão.

Jesse abre um sorriso e conta vantagem pro seu cavalo.

-Viu isso Philipe? Nem deu tempo dele atirar.

Philipe nem se dignou a responder.

The Kid anda até o caído e algo estranho acontece. Suas moscas o abandonam, pousam no peito do morto. Mas ele nem começou a cheirar cadáver. Sente um cheiro estranho, adocicado. Se abaixa e prova um pouco do sangue. Groselha.

El Ratón, El Matador, já se levantou. Pressiona seu revólver contra as costas de Jesse.

-Te peguei.

-Você atiraria num homem pelas costas, Pepê?

-Acha que vamos descobrir agora.

Jesse sentiu a pressão aumentar contra um ponto. Ele cai de joelhos e pergunta se morrer te deixa surdo, porque podia jurar que não ouviu o barulho da bala.

Se vira e vê o rosto de Pepê iluminado pelo sol com um sorriso de gato que comeu o canário. Vê seu braço em riste ainda, segurando a arma e na ponta desta um papel desenrolado, escrito "BANG!".

-Você é mesmo um engraçadinho, Rato.

-Hey, pode me chamar de O Coringa.

-Quê?

-Você ia ter que fingir saber espanhol para entender. Agora vamos, você pode tocar Lady Madona no seu banjo âmbar enquanto eu conto como atirei fora as pernas de um cara chamado Dan.



quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Wise men say (only fools rush in)

Havia algo diferente na maneira que ele se reclinou na cama dela essa noite. Que bobagem, pensou, eles já tinham dormido juntos centenas de vezes e pelo menos metade dessas ela estava apaixonada por ele.
Ela se deitou também, usando o braço dele como travesseiro. O sentimento era familiar. Ele começou a brincar com seu cabelo tentando bagunça-lo. Familiar, extremamente familiar. Ele beijou-lhe o topo da cabeça. Okay, isso era um pouco mais raro, mas ainda assim, nada pra se preocupar. Ele escorregou pela cama, e virou de lado, alinhando a cabeça dos dois. Ele fechou os olhos e ela deve ter fechado também, porque de repente o único sentido que importava era o tato, a pressão dos lábios dele. A língua dele, ah, isso que era diferente, que bom que tinha conseguido descobrir.
Amaldiçoou sua capacidade pulmonar, era sempre ela que tinha que parar pra respirar. Talvez se não tivesse chorado antes, seu nariz não teria entupido.
Percebeu que durante o beijo sua perna tinha se enroscado na dele e que agarrava a camisa que ele usava a ponto de amassa-la.
Ele não parecia se importar nem um pouco. Na verdade ela que deveria se importar com o fato da mão dele ter entrado por debaixo da sua blusa e estar repousando em sua cintura. Não se importava.
-Você está vermelha.
-De novo com essa história? Eu já disse que não fico vermelha.
-Fica sim - as pupilas dele estavam imensas- Você fica linda vermelha.
Se o objetivo era enrubesce-la, agora ele definitivamente tinha conseguido.
-Eu te amo, sabia?
-Dur, a gente anda junto desde a quinta série, se não me amasse você já me odiaria por agora.
Ele mordeu o lábio daquele jeito bonitinho que ela conhecia bem.
-Eu não sabia, realmente não sabia
-Bom, você sempre foi meio lerdo. Ainda bem que eu te suporto, senão já teria se perdido pelo caminho.
-Eu sei, você é praticamente uma bússola. Só acho que seu norte é um pouco diferente da maioria das pessoas.
Se suas mãos não estivessem firmemente entrelaçadas nos cabelos dele teria que ter lhe dado um tapa de aviso.
Ele riu e a beijou novamente, apertando sua cintura.
-Então, desde quando você sabe?
-Já faz um tempo.
-Mas quanto? Eu quero saber quanto tempo eu passei sem beija-la quando eu podia.
Ela sorriu, ele conseguia ser melodramático quando queria.
-Ah, você sabe, umas três semanas.
-TRÊS SEMANAS?! Eu aqui me sentindo culpado por ter feito minha melhor amiga passar por anos de silencioso sofrimento por não poder me ter...
-Nossa, como você é convencido. Silencioso sofrimento? Você parece uma menina.
A perna dela tinha apenas apertado mais sua cintura, enquanto a mão dele traçava círculos em sua barriga.
-e ela me diz três semanas. E ainda tem a audácia de me chamar de lerdo.
-Hey, eu nunca disse que era muito esperta. E foram três semanas dificeis. Eu devo ter tido esse silencioso sofrimento que você diz.
Ele rolou por cima dela e a beijou com mais carinho e ternura que das outras vezes.
-Me desculpe.
-Está perdoado.
Houve um momento de hesitação. Ela começou a desabotoar a camisa dele. Ele se afastou sutilmente.
-O que foi?
-Não, nada.
-Ora vamos, você pode me contar.
-É só que, a gente se conhece a tanto tempo, e agora tá tudo andando tão depressa. Eu tenho medo que alguma coisa aconteça e a gente passe a se odiar.
-Eu nunca poderia te odiar. E não é por nada não, mas eu já te vi sem camisa e por incrivel que pareça consegui me controlar.
-Nossa, mas deve ter sido um esforço.
-Oh, você nem imagina. Todo o silencioso sofrimento e tal.
-Agora você tá só me zoando.
-Claro, e você serve pra mais alguma coisa?
Ele rolou de lado e a fitou por debaixo dos cílios.
-Eu posso dormir aqui?
-Humm, só se tirar a camisa.
-Ah, igualdade de condições!
-Mas você vai ter que se controlar, não morra de emoção, ou coisa assim.
-Eu prometo, estarei aqui em silencioso sofrimento.
Ela tirou a blusa e se aninhou no abraço dele. Com uma pancada desligou o abajur.
-Boa noite.
-Boa noite, mon cherré.
-Agora você virou uma menina de vez.
Ela fechou os olhos e sorriu sentindo o perfume dele.