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quinta-feira, 30 de abril de 2009

A little less sixteen candles, a little more touch me

"Porque se você for parar pra pensar, um filme adolescente é tão realista quanto um musical da Broadway."
É fofo ver você parado aí, com as mãos na cintura, empurrando o óculos da ponta do nariz, testando a verosimilhança do último "se não fosse por John Hughes não pensaria em existir".
"Quer dizer, porque é sempre a garota nerd que fica com o gostosão da escola? E o que acontece com o garoto nerd? Eles não merecem amar também?"
"Em Namorada de Aluguel o cara nerd fica com a popzinha. Em Vingança dos Nerds também."
Você dá de ombros e coloca outro dvd na prateleira.
"Mesmo assim, excessões."
Com o cabelo caindo no rosto, e a camiseta cinza um pouco grande demais vc parece bom o suficiente pra comer.
"Bom, eu acho que esse tipo de filme normalmente é direcionado pra garotas, e não garotos adolescentes. E é muito mais fácil quem for ir ver ser, ou ter sido, uma garota nerd que gosta do bonitão da escola do que o contrario. É realização de fantasias. Como dizem, comédias românticas servem como pôrno emocional pra mulheres. Comédias românticas adolescentes devem ser o equivalente a uma porno-chanchada leve."
Seu sorriso pra mim deixa de ser divertido e se torna predátorio.
"Porno-chanchada? E qual era a sua fantasia com o gostosão da escola?"
Você me puxa pra perto da parede e começa a beijar meu pescoço.
"Hum, sabe eu sempre gostei mais do angulo melhor amiga que é apaixonada pelo nerd gato que nem percebe que ela existe até o último minuto. Beeeeem mais realista."
Demora um tempo pra você responder, estando com a boca cheia e tal.
"Eu ainda acho esses filmes bobos."
"Você tem que pensar assim, enquanto a gente assiste 10 coisas, Ela é Demais, e, pra um estimulo mental maior, Garotas Malvadas, você perdia tempo e energia com Star Whores. Pelo menos a trilha sonora dos filmes bobos é sempre do caralho. Dancing with Myself é tão clássico."
"Puta que o pariu, porque você nunca usa saia?"
Até eu conseguir formar uma resposta coerente demora um tempo. É culpa sua.
"Culpe o pós-feminismo. Sempre me ensinaram que eu que tenho que usar as calças na relação."
Você ri no meu cabelo e é um dos melhores sons que eu já ouvi.
"Pelo menos com Star Whores eu aprendi alguma coisa."
Eu olho pra você com desafio.
"Só papo."
Você finge que não ouviu, tenta me distrair.
Funciona.

terça-feira, 1 de julho de 2008

assim

E é tipo como se eles tivessem dançando uma valsa, talvez seja isso mesmo. Mas essa nem é minha parte favorita. O legal é quando ele pega a mão dela e dois saem correndo pelo mundo, selvagens e jovens. E também quando ela ri, do outro lado da rua, e ele percebe que é pra ele.
-O nosso amor é tipo assim, épico.
-Okay, Logan.
-Quem?
Ele pisa nos pés dela e ela tem que conduzir. Será um tango? Ele grita com entusiasmo e ás vezes ela manda ele calar. Ás vezes ela grita junto. E essa é minha parte favorita.
Ela fica muito quieta e ele fica quieto também, por três segundos que seja, e pergunta o que está acontecendo e ela só olha e ele entende. E essa é a minha parte favorita.
-É tipo assim, daqueles que te fazem querer voar.
-E uma rosa por outro nome ainda terá o mesmo perfume?
-Bebeu?
E quem diria que era tão fácil aprender um paso doble. Pelo menos é isso que parece. Impressionante é quando ela não sabe, e ele tem que contar, mas é claro que ela não acredita, e é claro que no fim ele que está certo. E essa é minha parte mais preferida.
Mas sabe quando eles nem se impressionam mais um com o outro? Quando o fato dele ser fantástico, e dela ser fantástica, é natural? Essa é minha parte favorita.
E lembram quando eles se lembram que eles são fantásticos, e que nem todo mundo é assim? Essa é minha parte favorita.
Não, sinto muito, mas eles se recusam a dançar isso que eles chamam de salsa. Uma pouca vergonha, isso sim. Eles tem classe, afinal. E essa, bom, essa é minha coisa favorita.
E quando eles caem no tempo e espaço e brincam que são melhores amigos. Essa é minha parte predileta.
As vezes é tudo tão intenso e rápido que eles esquecem que se gostam e viram quase que inimigos. Os mais formidáveis dos inimigos, porque eles se conhecem tão bem. E essa é minha parte favorita.
E quando ele esquece de reparar nos sapatos dela. E quando ela amarra o nó da gravata dele. E quando os dois aparecem com um corte de cabelo novo e meio que se ressentem por isso, porque cara, eu queria muito que você ficasse focado no meu cabelo. Eu acho que essa é parte favorita do mundo inteiro.
Quando ela não para de falar. E ele perde a eloquência. Ela anda com o braço entrelaçado no dele, pra não perde-lo.
O final do giro que eles fizeram direito. Talvez tenha sido um bolero o tempo inteiro.
-Intrepído. Como Lois Lane e Superman.
Ela acha graça, porque ele não assiste muita tv.
-Por favor, é o século 21, como Clark e Chloe, pelo menos.
E essa é minha parte favorita.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Sing(c)el(r)o

-Gosh, this boy. Depois que foi feito, quebraram o molde.
Falou sem emoção.
-Ah, você acha isso? E porque não fala pra ele?
Os joelhos das duas se tocavam levemente. Deu de ombros.
-Pra que? Que bem faria?
-Sei lá. Talvez... sei lá.
Começou a brincar com as pontas da pulseira, já desbotada, do Senhor do Bonfim. Três desejos.
-Será que ele usa protetor solar?
-Quando vai pra praia?
-Não, não, assim, todo dia.
Piscou duas vezes, lentamente.
-Vai saber.
O barulho das bolas sendo chutadas, socadas e estapeadas era amplificado pelo teto alto.
-Eu acho as pintas dele bonitas.
-As o quê?
-As pintas. Do pescoço.
-É verdade.
Ele parou no meio da quadra, de costas para as duas. Pôs as mãos na cintura, como se seus rins incomodassem e girou o tronco.
Localizou as meninas, sorriu e acenou. Ela acenaram de volta. Saiu correndo.
-Posso te contar um segredo?
Pôs a mão na frente da boca, mas não diminuiu o volume da voz.
-Hum?
-Eu acho que ele sabe.


I think that he knows, I think that he knows.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Wise men say (only fools rush in)

Havia algo diferente na maneira que ele se reclinou na cama dela essa noite. Que bobagem, pensou, eles já tinham dormido juntos centenas de vezes e pelo menos metade dessas ela estava apaixonada por ele.
Ela se deitou também, usando o braço dele como travesseiro. O sentimento era familiar. Ele começou a brincar com seu cabelo tentando bagunça-lo. Familiar, extremamente familiar. Ele beijou-lhe o topo da cabeça. Okay, isso era um pouco mais raro, mas ainda assim, nada pra se preocupar. Ele escorregou pela cama, e virou de lado, alinhando a cabeça dos dois. Ele fechou os olhos e ela deve ter fechado também, porque de repente o único sentido que importava era o tato, a pressão dos lábios dele. A língua dele, ah, isso que era diferente, que bom que tinha conseguido descobrir.
Amaldiçoou sua capacidade pulmonar, era sempre ela que tinha que parar pra respirar. Talvez se não tivesse chorado antes, seu nariz não teria entupido.
Percebeu que durante o beijo sua perna tinha se enroscado na dele e que agarrava a camisa que ele usava a ponto de amassa-la.
Ele não parecia se importar nem um pouco. Na verdade ela que deveria se importar com o fato da mão dele ter entrado por debaixo da sua blusa e estar repousando em sua cintura. Não se importava.
-Você está vermelha.
-De novo com essa história? Eu já disse que não fico vermelha.
-Fica sim - as pupilas dele estavam imensas- Você fica linda vermelha.
Se o objetivo era enrubesce-la, agora ele definitivamente tinha conseguido.
-Eu te amo, sabia?
-Dur, a gente anda junto desde a quinta série, se não me amasse você já me odiaria por agora.
Ele mordeu o lábio daquele jeito bonitinho que ela conhecia bem.
-Eu não sabia, realmente não sabia
-Bom, você sempre foi meio lerdo. Ainda bem que eu te suporto, senão já teria se perdido pelo caminho.
-Eu sei, você é praticamente uma bússola. Só acho que seu norte é um pouco diferente da maioria das pessoas.
Se suas mãos não estivessem firmemente entrelaçadas nos cabelos dele teria que ter lhe dado um tapa de aviso.
Ele riu e a beijou novamente, apertando sua cintura.
-Então, desde quando você sabe?
-Já faz um tempo.
-Mas quanto? Eu quero saber quanto tempo eu passei sem beija-la quando eu podia.
Ela sorriu, ele conseguia ser melodramático quando queria.
-Ah, você sabe, umas três semanas.
-TRÊS SEMANAS?! Eu aqui me sentindo culpado por ter feito minha melhor amiga passar por anos de silencioso sofrimento por não poder me ter...
-Nossa, como você é convencido. Silencioso sofrimento? Você parece uma menina.
A perna dela tinha apenas apertado mais sua cintura, enquanto a mão dele traçava círculos em sua barriga.
-e ela me diz três semanas. E ainda tem a audácia de me chamar de lerdo.
-Hey, eu nunca disse que era muito esperta. E foram três semanas dificeis. Eu devo ter tido esse silencioso sofrimento que você diz.
Ele rolou por cima dela e a beijou com mais carinho e ternura que das outras vezes.
-Me desculpe.
-Está perdoado.
Houve um momento de hesitação. Ela começou a desabotoar a camisa dele. Ele se afastou sutilmente.
-O que foi?
-Não, nada.
-Ora vamos, você pode me contar.
-É só que, a gente se conhece a tanto tempo, e agora tá tudo andando tão depressa. Eu tenho medo que alguma coisa aconteça e a gente passe a se odiar.
-Eu nunca poderia te odiar. E não é por nada não, mas eu já te vi sem camisa e por incrivel que pareça consegui me controlar.
-Nossa, mas deve ter sido um esforço.
-Oh, você nem imagina. Todo o silencioso sofrimento e tal.
-Agora você tá só me zoando.
-Claro, e você serve pra mais alguma coisa?
Ele rolou de lado e a fitou por debaixo dos cílios.
-Eu posso dormir aqui?
-Humm, só se tirar a camisa.
-Ah, igualdade de condições!
-Mas você vai ter que se controlar, não morra de emoção, ou coisa assim.
-Eu prometo, estarei aqui em silencioso sofrimento.
Ela tirou a blusa e se aninhou no abraço dele. Com uma pancada desligou o abajur.
-Boa noite.
-Boa noite, mon cherré.
-Agora você virou uma menina de vez.
Ela fechou os olhos e sorriu sentindo o perfume dele.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Trilha Sonora III

Track 3- Drika (Sunday Morning)

Amizade com a Drika é que nem essa música, relaxada, gostosa e altamente viciante. Essa música tem um je ne sais quoi , um clima que eu associo com tardes preguiçosas e absolutamente ninguém me lembra tanto tardes preguiçosas quanto a Drika. E também é outra das que a gente cansou de cantar juntas, sempre errando na mesma parte. Perfeita pra um videokê.

:

Sunday morning rain is falling
Steal some covers share some skin
Clouds are shrouding us in moments unforgettable
You twist to fit the mold that I am in
But things just get so crazy living life gets hard todo
And I would gladly hit the road get up and go if Iknew
That someday it would lead me back to you
That someday it would lead me back to you
That may be all I need
In darkness she is all I see
Come and rest your bones with me
Driving slow on Sunday morning
And I never want to leave
Fingers trace your every outline
Paint a picture with my hands
Back and forth we sway like branches in a storm
Change the weather still together when it ends
That may be all I need
In darkness she is all I see
Come and rest your bones with me
Driving slow on Sunday morning
And I never want to leave
But things just get so crazy living life gets hard todo
Sunday morning rain is falling and I'm calling out to you
Singing someday it'll bring me back to you
Find a way to bring myself back home to you
And you may not know
That may be all I need
In darkness she is all I see
Come and rest your bones with me
Driving slow on Sunday morning
Menções Honrosas: My Happy Ending, Since U Been Gone, É o amor (só a Drika entende o quanto essa música é legal)

domingo, 28 de outubro de 2007

Trilha Sonora II

Track 2- Rafael (Nemo- Nightwish)

Pra uma pessoa tão musical como o Rafael é dificil escolher apenas uma, entre tantas músicas especiais. Mas eu me lembro a primeira vez que ouvi Nemo, numa sala escura e semi-abandonada, depois da aula, e a forte impressão que ela me causou. E de ficar pentelhando o Rafael pra ficar tocando ela de novo e de novo e ele me falando que eu gostava mais da música do que ele. Também me remete ao inicio do nosso relacionamento, em que fã de Nightwish foi um dos primeiros, e mais incompletos, rotulos que eu apliquei a ele. Aquele show na beira do lago foi divertido e importante e tinha um palco pra baixo. Um padrão começou a ser formar ali, nada seria como antes.

:


This is me for forever
One of the lost ones
The one without a name
Without an honest heart as compass

This is me for forever
One without a name
These lines the last endeavor
To find the missing lifeline

Oh how I wish
For soothing rain
All I wish is to dream again
My loving heart
Lost in the dark
For hope I`d give my everything

My flower, withered between
The pages 2 and 3
The once and forever bloom gone with my sins
Walk in the dark path
Sleep with angels
Call the past for help
Touch me with your love
And reveal to me my true name

Oh how I
soothing rain
All I wish is to dream again
My loving heart
Lost in the dark
For hope I`d give my everything
Oh how I wish
For soothing rain
Oh how I wish to dream again

Once and for all
And all for once
Nemo my name forevermore
Nemo sailing home
Nemo letting go
Oh how I wish
For soothing rain
All I wish is to dream again
My loving heart
Lost in the dark
For hope I`d give my everything
Oh how I wishFor soothing rain
Oh how I wish to dream again

Once and for all
And all for once
Nemo my name forevermore
My name forevermore



Menções honrosas: Grace Kelly, Bohemian Rapsody, My Doorbell, Yo Soy Rebelde

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Trilha Sonora

Então, eu ando brincando com essa idéia já faz umas duas semanas, entrando aqui, quase postando e aí desistindo. Sei lá, medo de parecer muito sentimental, muito brega, muito... gratuita, mas enfim decidi levar adiante. A minha cabeça anda muito centrada em projetos, sabe, coisas a longo prazo, com um certo compromisso (talvez por isso eu ande postando pouco, a ultima historia que me peguei escrevendo já tem umas vinte págs), e outro dia, deitada na cama antes de dormir, me veio essa inspiração, que na hora pareceu genial e na luz do sol meio boba. Vou contar, a principio a ideia que eu tive foi de fazer um cd, com músicas que eram importantes, ou que me lembravam os meus amigos. Na verdade, vou começar do começo. Sabe aquela história de você ter uma música com alguma pessoa? Eu percebi que eu tinha isso com a maioria dos meus amigos e aí a história do cd aconteceu. Só tem um problema, eu não sei baixar músicas, não sei compilar cds e gravar só sei se o cd for inteiro. E fora o fato que ficaria sem muita explicação de porque essa ou outra música, e então me veio a ideia genial. Putz, eu tenho um blog, eu posso postar músicas, imagens, escrever o que eu quiser e mandar o mundo todo ver. Por razões postadas acima eu hesitei, mas agora resolvi encarar (eu e meu velho amigo Buscopan pra cólicas menstruais do inferno).

Track 1- Renata (You´re so Vain- Carly Simon)

Eu tenho quase certeza que houve algum momento no tempo espaço em que a letra dessa música se aplicou bem demais a nossa amizade, de ambos os lados, pra ser saudável. Honestamente o mais divertido é ficar cantando juntas repetidas vezes ela, enchendo o saco de todas as outras pessoas. Clássico.




You walked into the party
Like you were walking into a iate
Your hat strategically dipped below one eye
Your scarf it was apricot
You had one eye in the mirror
As you watched yourself gavotte
And all the girls dreamed that they'd be your partner


They'd be your partner, and

You're so vain
You probably think this song is about you
You're so vain
I'll bet you think this song is about you
Don't you? Don't you?


You had me several years ago
When I was still quite naive
Well, you said that we made such a pretty pair
And that you would never leave
But you gave away the things you loved
And one of them was me
I had some dreams they were clouds in my coffee


Clouds in my coffee, and

You're so vain
You probably think this song is about you
You're so vain
I'll bet you think this song is about you
Don't you? Don't you? Don't you?

I had some dreams they were clouds in my coffee
Clouds in my coffee, and

You're so vain
You probably think this song is about you
You're so vain
I'll bet you think this song is about you
Don't you? Don't you?

Well, I hear you went up to Saratoga
And your horse naturally won
Then you flew your Lear jet up to Nova Scotia
To see the total eclipse of the sun
Well, you're where you should be all the time
And when you're not, you're with
Some underworld spy or the wife of a close friend
Wife of a close friend, and

You're so vain
You probably think this song is about you
You're so vain
I'll bet you think this song is about you
Don't you? Don't you? Don't you?

You're so vain
You probably think this song is about you
You're so vain
You probably think this song is about you

You're so vain
You probably think this song is about you
You're so vain (so vain)
I'll bet you think this song is about you
Don't you? Don't you? Don't you?

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Kindred Spirits

Assim que ouvi o clique-clique dos saltos dela perdi a concentração. Olhei por debaixo do cotovelo, enquadrando sua figura obviamente alegre. Um sorriso me pegou de surpresa antes que eu pudesse fechar minha expressão e fingir que nem percebi ela entrando.
Ela parou atrás da minha cadeira, suspirando uma e depois duas vezes, tentando chamar minha atenção. Nem olhei pro lado.
Finalmente ela mudou para uma tática mais direta.
-Bom dia.
Ela disse praticamente cantando, num tom que conheço bem demais para ignorar.
-O que foi agora?
Perguntei ainda sem me virar. Ela puxou a cadeira do lado da minha e fingiu inocência.
-Nada não.
Olhei pra ela fazendo uma cara feia. Ela ainda estava com aquela expressão boba de contentamento que eu conheço tão bem.
-Vamos, diga logo, que eu estou muito ocupada.
Tento parecer durona, mas essa última frase saiu quase como uma carícia.
Ela deve ter pescado um pouco da minha curiosidade, porque arrastou cada palavra como se estivesse saboreando-as.
-Oh, é só que papai me convidou para passar o fim de semana na cidade e disse pra chamar alguém. Imaginei que você tivesse algum tempo, já que vida social é uma lenda pra você.
Apertei mais minhas sobrancelhas e tentei fazer com que minha boca se abrisse num riso de desdém. Não sei se deu muito certo.
-E o que eu iria fazer num fim de semana com você e seu pai?
Ela respondeu como se fosse a coisa mais idiota do mundo.
-Até meninas que vivem com graxa sob as unhas gostam de comer em bons restaurantes e fazer compras. Inclusive se você resolver vir vai ter que tomar um banho.
-Eu tomo banho! Talvez você não reconheça porque é não é com um daqueles perfumes franceses ridiculamente fedorentos que você parece ser tão fã.
-Não me dê motivos para te chamar de simplória novamente. Até que eu vejo uma fagulha de esperança quando você se comporta bem.
-Como estou honrada. Agora dá pra encher a paciência de outra pessoa, sua loira...
-Essa é sua melhor resposta? Atestar a cor do meu cabelo? Talvez você ande um pouco enferrujada.
-Se eu tenho que explicar até essa pra você, princesa, o tiro foi mais certeiro do que eu pensava.
Ela piscou com confusão e arregalou os olhos quando compreendeu. Ela pareceu um pouco ofendida, o que me preocupa. Nunca tinha ido exatamente nessa questão e talvez eu tenha cruzado a sutil linha que a gente está sempre se aproximando. Ela deve ter percebido meu atrapalhamento porque sorri me assegurando. Eu sorrio de volta e de repente a gente está se divertindo de novo.
Me pergunto quando foi que aconteceu. A gente costumava não se suportar. Erámos muito diferentes, conheciámos mundos muitos distintos. A simples existência de uma já era um insulto para a outra. Agora é tudo tão prazeroso. Quando foi que a gente deixou de brigar e começou a brincar de brigar?
Uma nota de divertimento cobria sua voz.
-Então faça as malas e esteja pronta sábado de manhã. Não queremos perder o dia inteiro.
-Certo, certo, como você ordenar. Agora sai logo daqui que eu tenho que terminar de ler.
Ela se levantou e estava indo embora, quando uma ternura aveludada me envolveu. Seguro a ponta dos seus dedos impedindo que ela ande.
-Tchau, melhor amiga.
Alguma emoção estranha cruzou seu rosto antes dela encostar a testa contra a minha.
-Até mais, melhor amiga.
Ela sussurrou. Apertou minha mão e deu dois passos para ir embora, até mudar de idéia. Puxou uma cadeira ficou me vendo ler.